quarta-feira, janeiro 17, 2007

Dureza

Não consigo dormir. A cabeça esta simplesmente ligada, em paradoxo com o corpo cansado. Na verdade, não sinto cansaço. Sinto dor. Dores espalhadas pelo corpo. Dor de diversos tipos. Posso identifica-las para catálogo. Na canela - dor no osso, do treino de banda e cabeçada com o judoca. Na panturrilha direita - devo ter levado um chute forte, que nem Gelol tá passando. No joelho - calombo hereditário. Herança tanto de pai quanto de mãe, que dói esporadicamente, sem aviso prévio. Na bacia - muito treino de martelo no aquecimento do treino. Resultado de um final de semana puxado no sedentarismo, brindado por uma festa de casamento.
(péra ai que o joelho ta mandando sinal).No estômago - de um joelho ( esse é o salgado) misto-monstro-Guiodai que espero ficar longe, pelo menos pelo tempo que durar essa lembrança. No peito - por ter levado na cara, da pessoa que cismei em confiar. Essa dor faz reflexo nos olhos, que cismam em chorar. Na cabeça- do conflito na minha mente, que luta para não permitir que eu aprenda esta lição, que o mundo ( moderno, adulto, malandro, sei lá) não permite que confiemos em ninguém. Batalha solitária essa da vida. E sofrida para mim, que sempre acreditei na força de uma amizade, que sempre quis ser alguém de confiança.

Meu peito esta amargurado. Se a lição for aprendida, um pouco mais de maldade terei aprendido. Chega a doer em certos pontos a cabeça. Lugares não explorados desse terrenos nebuloso.

Tentando com perita ineficiência caçar o sono, li um pouco sobre a História do Cinema Mundial. depois rolei de todos os lados da cama, apelando para a almofada entre as pernas e nada; tentei a cara sufocada no travesseiro e também não. Acho que tem muito travesseiro nessa cama. Então lembrei de um livro que comprei, de cartas trocadas entre Clarice Linspector e Fernando Sabino ( este ao qual concluí hoje, ser o o meu autor predileto). Fiquei emocionado com o simples fato de escreverem, demonstrando cumplicidade, interesse por saber do outro e amizade. Dois personagens que conhecendo somente pelas suas obras, nunca imaginaria seu vinculo, sua amizade, essa ligação.

Pois bem, na carta de Fernando do dia 6 de julho de 1946, Fernando chega a conclusão que "viver apenas não basta. é preciso uma convicção. Certa ou errada, mas uma convicção e conscientemente escrever , falar, brigar, viver por ela."

Penso em ter a convicção de não me entregar à dureza, à aspereza , à dissimulação. Ao invés de aprender com a porrada das pessoas que bem quero, ensinar. Meu orgulho sangrará muitas vezes, acompanhado dos punhos arrebentados nas pontas de facas. Mas prefiro isso a amargura.

Citação fácil, mas não menos oportuna:
"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás."

E a conclusão de algo que aprendi num passado recente. Com o tempo essas dores passam. Todas elas. Menos a do joelho que cisma em voltar.

PS- Será que agora consigo pegar no sono?

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