domingo, outubro 28, 2007

Visita a estrangeiros

Eu tinha um horário marcado para a visita. Dez e trinta e cinco da manhã. Um horário estranho e intransferível. Ainda assim, com o pedido expresso de que eu chegasse com antecedência. Então acordei cedo, fiz alguns exercícios para a postura e pra barriga que não vão lá muito bem. Não vão bem desde uma aula experimental de Pilates. Descobri que respirava e andava errado. E eu ia tão bem até então... A professora era cheirosa e não tirava os olhos de mim, mesmo que fosse para dizer apenas "Está respirando errado". Mesmo assim , nunca voltei lá. O preço era uma baba.

Depois dos exercícios que aprendi em apenas uma aula, abri a porta do meu quarto para o café da manhã. Como já era de se esperar, minha mãe estava mais ansiosa do que eu. Me alertava para não perder a hora. Mais um dos instintos, do tipo: "Não vai botar o casaco?" Mães.

Tomei um bom banho. Saindo do chuveiro, fiquei em frente ao espelho. Lembrei-me das instruções para a visita. 1. Procure estar de barba feita. 2. Camisa social é uma boa pedida. 3. Use roupas claras. 4. Vá de cabelo cortado. 5. Vá de cuecas e meias limpas. ( só faltava) 6. Seja Cordial. Puta controle. Lembrei-me de um clipe do Eminem, em que uma máquina faz um bando de garoto com a roupa e o cabelo do Eminem. Padronizado. Então resolvi. A barba eu não vou fazer. E a camisa social vai ser a que eu achar melhor. Evitei a de tecido cru. Ficou igual a uma bata árabe. Também não preciso apelar.

O consulado americano é um órgão público, como todo consulado. E, como todo órgão público, tem suas regras. Fila do lado de fora. Alguém chega para conferir se está com todos os documentos a mão. Caso lhe falte a foto 5x5, tem um camelô-fotógrafo preparado para o serviço. É claro, com preços acima do mercado. Isto é um fato a se analisar. Tendo oportunidade, sempre tem alguém para lucrar. Tem o cara que vende a taxa do banco americano, caso alguém não tenha. Tem o que vende o formulário impresso em branco, e outro que preenche. Tem um que corre certo risco, e é odiado quando desmascarado. Encara a fúria do povo. O vendedor de lugar na fila. O maior filho da puta da praça. Todos eles convivem bem. Uma companhia de atendimento aos esquecidos , distraídos e apressados do consulado. Um camelô guarda sua mala ou seu celular do lado de fora. Não é permitida a entrada com estes. Faltou um armário escaninho com senha. Sugerirei, caso alí volte.

Pergunta: Por que não se pode entrar no consulado com telefone celular? Para não pagar interurbano em território estrangeiro? Como são bons ! Fato comum a àqueles que são tão amados.

Depois da segunda fila de espera do lado de fora, passamos por um detector de metais. As bolsas e mochilas passam por um raio-x. No caminho para a próxima sala abro uma porta. Que porta pesada camarada! Incrível. Um palmo de espessura. Eu que não queria ser porteiro dalí.

Chegamos então a uma sala oval, com um corredor central . Dois balcões, um de cada lado do corredor. Um para receber seus documentos, checar se esta tudo certo ( de novo). O outro com uma placa: "Correiro Expresso". E não bastasse aquela companhia toda especializada ao lado de fora , ainda tem alguém lucrando do lado de dentro. Além dos dois balcões, muitas cadeiras. Bancos enfileirados, como sala de espera de grandes clínicas médicas. Cabiam umas duzentas pessoas ali. As paredes com acabamento em madeira com ondulações na vertical. Assim como uns blocos verticais finos, que alinhados davam uma sensação de onda, localizados numa parte da parede próxima ao teto. Decoração que gera certo conforto para um ambiente que é idêntico a um cofre forte de um banco. Aposto que tinham câmeras e microfones.
Também havia duas placas eletrônicas de senha. Uma para seguir para a gravação das impressões digitais. A outra eu não entendi para que servia. O fato é que as senhas não eram chamadas em ordem, obrigando você a ficar ligado na senha. E se não fica, nenhum dos americanos nos guichés se importa caso ninguém apareça para ser atendido.

As pessoas dispostas nesse salão pareciam artificiais. Poucos conseguem relaxar. Tinha um cabeludo, tipo roqueiro adolescente, que parecia ter feito a barba pela primeira vez. Amarrou o cabelo numa trança gigante para ficar mais apresentável. Mas não ter nada pra fazer naquele ambiente torna tudo mais tedioso. Momento pra pensar na vida. Invejei com força uma senhora ao meu lado que se entretinha com uma palavra cruzada. Ela percebeu que eu olhava pra sua revista. Riu nervosa pra mim. Estava convicta que seu pai, uma simpática cabeça branca ao seu lado, nunca conseguiria tirar o visto. "Sabe qual é o nome dele? Khalid al-Nassaj." Seu pai ria e me dizia: "e eu nem simpatizo com a Alcaida.Hihihi" Por um longo período segui invejando a palavra cruzada.

O clima do ambiente não permitia muita interação com as pessoas. O cara do balcão levantou a voz e o silêncio completo se fez: Flávia Costa Miranda. Flávia-Costa-Miranda. O clima de "se fudeu" se instaurou no olhos de todos. Levanta uma menina de no máximo 12 anos. Desfila pelo corredor central. " Óh, o que será que ela fez? Coitadinha. Não vai poder ir pra Disney com a família?" todos os olhos diziam. Foi só uma chamada... ela tirou os olhos do placar. Seu número já estava lá há uns cinco minutos.
De repente ((PÁ!)). Um estalo retomou o silêncio absoluto do cofre, Olhos medrosos corriam todos na mesma direção. Todos contaminados com o doente medo americano de atentado iminente em qualquer lugar. Doença parente do medo carioca de bala perdida. Eu não tenho medo de bala perdida. Me preocupa mais as balas com endereço certo. Mas também idiota de ficar parado em tiroteio. O PÁ foi a pasta de um pai com bebê de colo nos braços. Parece que o bebê jogou a pasta do papai no chão. Parece que o papai ficou com cara de pato( bico pra baixo e olho chapado). O bebê, que maravilha, a quem toda a neurose sócio-política-xenofóbica-comportamental ainda não foi assimilada, continua rindo.

Chegou meu número. 181. Minha vez de desfilar pela passarela do corredor central. Guichê 8. Primeiro americano com quem falo. Como sei? Motivos óbvios. Uma carona branca avermelhada, de quem o corpo não suporta o clima nem sob ar condicionado. Um sotaque carregado de quem tem um ovo na boca. Um olhar reprovador constante. Um vidro de 5 camadas entre nós. Americano. Dedo indicador esquerdo no aparelhinho de capturar digitais. Dedo direito. "Cóm fórrça!". Deve ter dado problema na leitura do aparelho, já que meu indicador direito é meio defeituoso, graças a um corte que quase decepa sua ponta, quando eu tinha uns dez anos. Famoso dedo zunha. Minha vontade na hora foi de enfiar o dedo na maquininha e arrebentar aquele bagulho com a pressão. Mas eles ainda tinha algo que eu queria, e também não sei se teria força pra isso.

O americano me perguntou de surpresa. "Know english?". Gaguejo. Yes , yes... well. Fui encaminhado para mais uma sala de espera. Mais uma sala, mais uma placa eletrônica chamando fora de ordem. Certamente, mais uma vez, câmeras e microfones.

Dessa vez 7 cabines. Três para um lado, três para o outro. No meio a porta 4. As outras seis são pequenas cabines, que conseguimos ver as entrevistas do banco de espera. Brasileiros - 5 camadas de vidro - americanos. Mas a porta 4 era diferente. Uma porta que dava para um corredor de paredes de camurça. Ninguém daquela leva foi chamado pra lá. O que haveria lá? Uma sala com uma banca de examinadores sentados num palco alto, voltados para uma única cadeira no centro da sala? Sala para casos especiais, como aqueles que assinalaram um "X" na opção do formulário " Tenho conhecimentos de física nuclear" ? ( sim, há essa opção no formulário, perto da opção " tenho prazer/ admiração pelo uso/manuseio de armas de fogo). A sala 4 poderia ser só uma fachada, para mexer com a imaginação. Podia acabar no corredor. Mas eles não teriam um senso de humor desses. Só sei que na hora da espera eu sabia. Se piscasse "181 - guichê 4" eu levantava e me despedia. "Desisto". Tocou para o 6.

Três ou quatro perguntas idiotas em inglês. Pague aqui, volta aqui, pague lá e good luck in Unites States.

Pior que americano escroto é brasileiro que pega o jeito de americano escroto. A última atendente, funcionária da empresa de Entrega Expressa que envia o passaporte com visto. Jeito arrogante que não combina. Infectada.

Saí empurrando as pesadas portas. Agora não tem mais jeito. Estarei lá. Caminhando pela área calma do Centro do Rio, resolvo comer um salgado. O baixinho do balcão paquera todo solícito a secretária que vai sempre ali. Ela esquece o seu caderno. Ele abandona o posto para entregá-la. Vou sentir falta disso aqui.

terça-feira, outubro 02, 2007

o que se diz daquilo que não diz nada.

Oi
então,
pois é,
essa aqui
não é

Pois é,
essa aqui
não é
Oi
então

Então,
oi,
não é
essa aqui?
Pois é

Essa aqui
Pois é
Então
oi
não é?

Não é!
Pois é
essa aqui
Então
oi.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Daqui pra lá

Enquanto eu finjo ter paciência
chega um momento
que tudo parece não ter jeito
e quase desisto de ser eu mesmo
Momentos que percebo
que não sou tão forte quanto penso

Um impulso inconsciente
me impulsiona logo ali
de onde acabei de sair
pra ver que no mundo
ainda tem mais gente

Então não me perco mais entre os inocentes
não carregarei o fardo dos carentes
certo e errado não é gesso
simplesmente sendo
How does it fill?
Concreto e atraente